Lúcio, o gênio. Amadeus, o gentil.
Lúcio, o gênio.
Em uma família rica do Rio de Janeiro, nasceu um menino de aparência angelical, tinha cabelos cacheados cor de mel e olhos azuis tão claros que pareciam acinzentados. Por lembrar a luz, foi chamado de Lúcio. O belo garoto era admirado e amado por todos ao redor. Com dinheiro, amor e beleza, parecia que nada lhe faltaria. Exceto pelas pernas, que nunca se moveram desde o nascimento.
Na verdade, havia outra coisa faltando no menino, e os pais, ocupados demais, nunca perceberam. Raramente era visto sorrindo, mas gargalhou ao ver a empregada tropeçar na escada e quebrar uma perna. O motorista responsável por levar Lúcio frequentemente aparecia com alguma doença nova. O que ninguém jamais descobriu foi que Lúcio havia molhado o chão onde a empregada passaria e também era ele quem testava diferentes doenças no motorista. Às vezes, fazia isso por diversão; outras, por experimentação. O que faltava ao menino era empatia. Ninguém percebeu que aquela aparência inocente pertencia a um psicopata frio.
A vida escolar não apresentou desafios intelectuais para o menino, classificado como gênio desde pequeno. Nunca errou uma questão sequer. Aprendeu tudo o que a escola poderia ensinar aos dez anos e passou a dedicar seus estudos a coisas complexas demais até mesmo para doutores experientes. Os únicos problemas que teve na vida acadêmica eram sociais, mas ele sempre encontrava uma solução.
A jovem bonita que rejeitou seus avanços foi internada na semana seguinte com uma infecção causada por uma bactéria desconhecida. O atleta da turma que decidiu fazer bullying com Lúcio entrou em estado vegetativo alguns dias depois, por uma causa que não pôde ser descoberta pela medicina. As pessoas desconfiavam do garoto, mas não podiam provar nada. Ninguém acreditaria que um cadeirante que sempre carregava um livro e mantinha um olhar ingênuo pudesse fazer mal a alguém. Além da aparência convincente, ele tinha o dinheiro e a influência da família. Tudo isso tornava Lúcio ainda mais assustador para aqueles que o conheciam.
O comportamento de Lúcio se manteve até o início da vida adulta: arquitetar maldades e estudar. Estudava tudo o que estivesse ao seu alcance, como matemática, física, química, mecânica, robótica e, principalmente, biologia. Além de usar seu cérebro extraordinário para conquistar poder e machucar outras pessoas, pretendia resolver o que considerava sua única fraqueza: mover as pernas.
Estudou e experimentou em pessoas e animais diversas possibilidades para solucionar seu problema, mas nenhum livro explicava a causa de sua paralisia. Se fosse possível explicá-la, ele já teria entendido. Assim, após consumir todo o conhecimento científico produzido pela humanidade, o jovem, por acaso, encontrou um livro velho que falava sobre algo novo para ele: magia antiga.
A partir dali, passou a buscar livros, manuscritos e textos esquecidos, proibidos e malignos que tratavam de todo tipo de misticismo.
Anos se passaram. O excelente cientista agora também era um especialista em magia e misticismo. Após a estranha morte de seus pais, herdou a fortuna bilionária da família, que Lúcio logo multiplicou utilizando seu saber através de atividades ilegais. Montou uma rede clandestina de comércio e contatos. Tinha, portanto, o conhecimento e o poder necessários para investir na pesquisa que havia tomado os últimos anos de sua vida.
Lúcio descobrira a existência de um demônio preso por magia em uma caverna no interior da Romênia. O homem estudara como quebrar o selo que prendia o monstro para dominar seu corpo.
O que fez o psicopata se interessar por esse demônio, chamado Amadeus, era o fato de ele ser conhecido como a própria corrupção absoluta e possuir o físico perfeito. Tinha força física extrema, capaz de levantar toneladas e saltar centenas de metros. Era mais rápido e mais forte do que qualquer ser catalogado. Além disso, os relatos contavam que, ao encontrar algo mais forte, o demônio se adaptava para superar seus adversários.
Ninguém conseguia explicar como ele havia sido aprisionado. Os livros apenas registravam que, em algum momento, o monstro fora preso.
Quanto à corrupção, isso nunca foi um problema para Lúcio, que era a personificação do mal e desconhecia sentimentos como amor ou empatia. Na verdade, tomar a forma do monstro que havia causado tanta destruição parecia uma ideia perfeita.
Logo, partiu para uma expedição com uma equipe composta por trabalhadores dedicados a satisfazer seus caprichos. Carregado pelos subordinados, adentrou a caverna até chegar ao final, onde havia uma parede coberta por runas que formavam um grande círculo. No centro, entalhado na pedra, estava Amadeus.
De olhos fechados e braços cruzados sobre o peito, como um prisioneiro, seus músculos eram definidos com a perfeição das estátuas gregas. Seus chifres, levemente curvos, mediam meio metro. Sua cauda, de um metro e meio, tinha uma mão na ponta, como se fosse um terceiro braço, além de espinhos enfileirados que pareciam subir até a metade de sua coluna vertebral.
A visão daquela criatura paralisou os funcionários. Alguns tremeram tanto que caíram de joelhos apenas ao contemplar a estátua. Queriam correr, mas, mesmo preso, o monstro parecia impor uma presença aterradora. Todos sabiam que aquilo estava vivo.
Por outro lado, Lúcio paralisou de felicidade. Seus olhos se encheram de lágrimas. Finalmente, diante dele estava o corpo perfeito que passara anos procurando. Com pressa, ordenou aos funcionários que iniciassem o ritual de aprisionamento, que consistia em quatro pessoas posicionarem uma runa em cada canto de um quadrado perfeito, enquanto Lúcio cantava os termos do ritual.
Tudo caminhava conforme planejado. As runas estavam posicionadas e Lúcio estava prestes a concluir os termos. No entanto, um dos empregados, o motorista que fora maltratado por Lúcio durante toda a vida, decidiu que não poderia participar de uma maldade daquela proporção.
Levantou-se e removeu uma das runas pouco antes de Lúcio pronunciar a última palavra. O ritual parecia completo, mas algo estava errado. O motorista correu, e o psicopata o amaldiçoou. Lúcio fracassou em agarrar o homem que fugia da caverna.
Pela primeira vez em sua vida, Lúcio não sabia o que fazer.
As runas brilharam uma a uma, até que uma luz vermelha tomou a estátua, cegando todos os que presenciavam a cena. Os empregados fugiram, ignorando os gritos de Lúcio para que o levassem consigo. Depois de tantos anos servindo ao homem que os maltratava, nenhum deles estava disposto a voltar para buscá-lo.
Lúcio sabia que o ritual incorreto poderia produzir um resultado diferente, mas nem mesmo ele sabia o que aconteceria. Por isso, não queria continuar ali.
Tentou se arrastar para fora, mas não era veloz o suficiente. Assistiu à estátua tomar vida e sua pele de pedra se avermelhar. Amadeus sorriu para o indivíduo caído ao chão e, em um flash de luz, entrou no corpo do homem.
Ele berrou de dor e desespero. Os gritos eram tão altos que podiam ser ouvidos até do lado de fora da caverna. Ninguém ousou entrar novamente.
Quando os sons de tortura cessaram, os empregados voltaram para seu país. E os habitantes da vila ao redor da caverna abandonaram suas casas.
Não havia esperança para Lúcio.
E todos que o conheciam desejavam que ele estivesse morto.
Amadeus, o gentil.
No interior da caverna, Lúcio se contorcia e proferia palavras sem sentido, mas por dentro a luta era de Amadeus. Ao possuir um corpo, Amadeus tinha uma única função: corrompê-lo. Não era uma escolha. Sua própria existência corrompia aquilo que possuía. A personalidade da vítima permanecia, mas era distorcida pelo mal.
Amadeus nunca havia encontrado uma personalidade como aquela. Procurou bondade, amor, empatia, culpa, qualquer coisa que pudesse corromper. Não encontrou nada. Lúcio já era aquilo que todos os outros se tornavam depois de possuídos. Então o demônio tentou corromper o que restava: a própria essência de Lúcio.
O monstro se pôs de pé ofegante, com os olhos arregalados e apertando o peito como se tentasse tirar algo de lá. O corpo parecia dominado. Mas Amadeus não entendia o que acontecia em seu peito. Doía. Nunca havia sentido aquela dor. Ao lembrar dos massacres e das destruições que causara no passado, seu coração se apertou. Era remorso. Tristeza. O demônio chorou pela primeira vez em milênios de existência.
Amadeus havia corrompido o próprio mal.
E a corrupção do mal era o bem. O ser conhecido por espalhar a destruição por séculos sentiu pela primeira vez uma dor interna debaixo da pele intacta. Além daquelas emoções, o demônio começou a acessar as memórias do homem que havia possuído.
As imagens em sua cabeça também lhe causaram estranheza. Foi então que recordou o ritual. Jamais havia visto aquela magia e não sabia como o ritual alterado afetara a possessão. Entendeu apenas que aquela experiência era diferente de todas as outras.
Decidiu se levantar e caminhar para fora da caverna. Encarou a noite e alegrou-se ao presenciar a belíssima lua cheia dominando o céu estrelado.
Durante a caminhada pela vila, que havia sido abandonada às pressas, interrompeu o passo ao notar que pisaria em uma flor. Agachou-se e tocou suavemente, com a mão demoníaca, a bela flor sem machucá-la. Enquanto apreciava a flor, os insetos e a vida, homens da vila haviam voltado para buscar itens esquecidos.
Ao avistarem a fera infernal, gritaram palavras de repúdio e começaram a atacá-la com tudo o que tinham. Amadeus implorava para que parassem, mas sua voz demoníaca soava como uma ameaça aos ouvidos humanos, deixando-os ainda mais agressivos. Fugiu para garantir que a flor não fosse atingida pelos destroços que voavam, então sumiu das vistas dos humanos. Mesmo podendo enfrentar os homens sem dificuldade, escolheu fugir, porque não queria machucá-los.
Encontrou-se sozinho, refletindo sobre tudo o que vivera. Pela primeira vez em milhares de anos, não queria destruir ninguém. E agora não sabia o que fazer consigo mesmo. Buscava entender o que havia acontecido na caverna. Mas, principalmente, tentava desvendar o que ele tinha se tornado. Sempre soube que era o mal, mas agora sentia ser exatamente o contrário.
No horizonte, os primeiros sinais do sol fizeram Amadeus sorrir. Pela primeira vez, sentia-se livre. Então ouviu uma voz dentro da própria cabeça. Uma voz furiosa exigia que ele saísse e devolvesse o controle. Era Lúcio.
O demônio e o perfeito.
Quando o sol nascia, as pernas fraquejavam, os cabelos amarelavam e os bons sentimentos sumiam. Quando a noite chegava, os músculos se fortaleciam, a pele avermelhava e a genialidade se esvaia. Durante o dia, o corpo era de Lúcio. E durante a noite, era de Amadeus.
O ritual modificado fez com que ambos os seres passassem a dividir o mesmo físico. Com o tempo, aprenderam a se comunicar. Na verdade, descobriram que podiam gritar na mente de quem estivesse no controle. Quem controlava era obrigado a ouvir o outro.
Lúcio pensou ter conquistado a forma perfeita, mas conseguiu seu pior adversário. Durante o dia, o cientista fazia planos para conquistar mais poder ou fazer o mal por pura diversão. À noite, o monstro desfazia e atrapalhava os planos.
Com essa dinâmica, Lúcio passou a focar seus esforços em dominar, corromper e prejudicar Amadeus. Além de impedi-lo de fazer o bem.
Por outro lado, Amadeus buscava atrapalhar o psicopata, ajudar quem estivesse em apuros e proteger os fracos. Até tentava trazer o Lúcio para o lado do bem.
Ambos falhavam em mudar um ao outro. Aquele ritual aprisionou o puro mal e o puro bem no mesmo lugar.
Como vantagem para o homem, a possessão o impedia de envelhecer, assim mantinha a aparência jovem com a sabedoria adquirida com a idade. E a esperteza fez Lúcio aprender que parecer bom era muito útil para seus planos malignos. Assim, ele se tornou bem visto aos olhos das pessoas ao redor.
Já para o demônio, as magias que o homem aplicava para proteção funcionavam para ambos, então as fraquezas mágicas foram mitigadas, tornando-o ainda mais poderoso. Porém, sua aparência e voz demoníacas faziam as pessoas encará-lo sempre como um monstro. Por causa disso, Amadeus é perseguido justamente pelo mal que tenta impedir e que Lúcio provoca.
Apesar de, no momento da fusão dos dois, Amadeus adquirir as memórias passadas de Lúcio, eles não compartilhavam as mesmas lembranças e descobertas dali em diante. Um podia ver e ouvir o que o outro via e ouvia, mas a forma como absorviam a informação dependia da capacidade de cada um. O gênio aprendeu código morse, diversas formas de criptografia e idiomas variados, tudo para impedir o monstro de entender as informações que recebia. Lúcio desenvolveu um apreço particular por ler com o tato porque, se olhasse para o outro lado, Amadeus nem perceberia o que estava lendo. Assim, é claro, o gênio se tornou um perito em braille, entre outras formas de comunicação.
Certa vez, Lúcio enviou um caminhão carregado de comida como doação para uma casa de acolhimento de crianças abandonadas. O ato já despertou a atenção de Amadeus, porque sabia que o homem não se interessava por fazer bondade, apesar de às vezes fazer somente para desviar os olhares de seu plano principal. Então o monstro decidiu esperar e observou os movimentos do homem que o conduzia durante o dia. Quando a noite se aproximava, Lúcio observava o caminhão partindo. Chamou um de seus capatazes e o questionou se as bombas haviam sido incluídas nas caixas. Foi quando Amadeus entendeu qual era o próximo plano maléfico de Lúcio.
Poucas horas se passaram. A noite chegou, os chifres apareceram e as pernas se firmaram. Sem pensar por um segundo, Amadeus saltou pela janela e correu o mais rápido que podia em direção ao abrigo. As pessoas só podiam enxergar um vulto vermelho e escutar a respiração ofegante que soava com um canto proibido vindo do inferno.
Sem saber quanto tempo faltava até a explosão, ele assumiu que Lúcio havia calculado quanto Amadeus era capaz de correr. Supondo, então, que faltavam poucos segundos, Amadeus saltou uma distância humanamente impossível e quebrou o portão, a parede e o que apareceu no caminho para chegar à carga explosiva.
Agarrou o caminhão com apenas uma mão, puxou-o para fora e saltou verticalmente com toda a energia possível. O impulso do pulo causou uma cratera gigantesca no chão.
Os humanos amaldiçoavam e condenavam a besta que agora decidiu roubar a comida das crianças abandonadas. Ao verem a explosão no céu, concluíram que aquilo era um tipo de consumo infernal do alimento ou algo que não podiam explicar, mas que definitivamente era obra do mal.
Na manhã seguinte, um grupo de odiadores de Amadeus se reuniu em frente à mansão de Lúcio para pedir desculpas por falharem em capturar o maligno. Lúcio garantiu-lhes que não eram culpados e que enviaria o dobro da quantidade de alimentos às crianças naquele mesmo dia.
Lúcio planejou simultaneamente o crime, a culpa atribuída a Amadeus e a própria reação pública que ele teria.
E assim se seguiu a luta de dois seres pelo mesmo corpo.
Um era o mal absoluto.
O outro, o bem absoluto.
E nenhum deles conseguia vencer o outro.
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